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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Mulher: poder, liberdade e sexo



A menina que cresce hoje não deixa de ser delicada e romântica, apenas detesta limitações. A velha versão do conto de fadas jogava com a contradição entre a boa mãe, encarnada pela finada e a fada (versões da mãe da primeira infância) e a madrasta-bruxa ( representante da mãe da adolescente), que deixa de cuidá-la para disputar no mesmo território, invejosa e envelhecida. A versão que tenta resgatar Cinderela, encontramos uma mãe mais do que má, retrógrada, incapaz de entender a vastidão dos destinos de uma mulher, só pode oferecer velhas fórmulas. A outra mãe era ótima, mas morreu. Trata-se de uma ou várias gerações de mulheres órfãs de mãe, não que não as tenham, mas estas tampouco tem respostas, apenas questões, dúvidas, culpas, problemas de agenda, dificuldades para encaixar seus múltiplos papéis. Já não mais modelo, agora parceira de aventuras, descortina-se um espaço interessante de convívio, falta porém a figura da guia.

As novas meninas precisam encontrar desde cedo os modelos em que pautar esse jeito nada apagado de ser, o conto de fada contemporâneo, ou seja, o cinema, é um lugar privilegiado aos modelos que vieram em substituição da velha e submissa Cinderela, da desfalecente Bela Adormecida ou da ingênua Branca de Neve.




A liberdade das novas mulheres traz a dolorosa consciência da condição pantanosa do chão que pisamos: os patriarcas fraquejam, envelhecem, vacilam, os amados já não são também futuros respeitaveis senhores de bigode. À mulher independente corresponde um homem sensível, cujo melhor modelo é o rapazola romântico de Titanic. Perdida a ilusão da fortaleza masculina a mulher encontra novo tipo de fragilidade, frente a esta está só, como Lara Croft, sobrevivente, dependente apenas de suas habilidades para seguir adiante.




É preciso preparar as mulheres para a complexidade de seu novo papel, aí mais uma vez o cinema faz sua parte. Às mulheres principiantes este último ano foram oferecidos dois filmes: Mulan (estúdios Disney) e o menos comentado A Espada Mágica (estúdios Warner). Trazem trama similar: duas jovens são forçadas a percorrer um destino de guerreiras e o fazem com mestria. Mulan salva toda a China da dominação Mongol e a outra salva um rei que não é outro senão Arthur. Ambas passaram por revezes no começo, pois revelavam-se inadequadas para o casamento e as tarefas do obscuro papel destinado às mulheres. Antes de demonstrar seu surprendente desempenho na terra dos homens, afinal não há espaço mais masculino do que a guerra, passaram por um estado extremamente incômodo no qual não eram aceitas em nenhum dos mundos. Mulan é uma lenda chinesa da qual não conhecemos muitos paralelos no ocidente, apenas para situar em termos de literatura brasileira, temos nossa Diadorim passeando os impasses da nova mulher pelo Grande Sertão Veredas.
A mulher tem seu próprio método para ir à guerra, não canta para espantar o medo, ela se apavora, desce ao abismo e sobe com consciência de seus limites. Curiosamente, sua recompensa para além da pompa e da glória, provém acima de tudo do amor. Assistimos pasmados à jovem Mulan sobrepor em importância o amor de um jovem guerreiro e o perdão de seu pai pela travessura, à própria consagração de sua coragem na Praça Imperial. A glória por ela conquistada seria suficiente para inebriar qualquer homem, mas para a mulher nada significa sem o amor. Toda ovação popular só é audível quando o guerreiro que conquistou seu coração atravessa o portão da casa paterna para pedir sua mão.É digno de nota que este amor é o por ela escolhido, não o designado pela rigidez da tradição.




Não faltaram em tempos anteriores mulheres diferentes, aquelas que dedicaram vidas a causas humanitárias, científicas, religiosas ou políticas. Estas aventureiras do destino feminino, outrora exceções, tornaram-se hoje a regra. Hoje os caminhos para a mulher são menos marcados, a reivindicação já não é tanto de novos espaços, mas que mais e mais mulheres possam ter liberdade de escolher a causa em nome da qual dedicar sua vida, seja ela social ou doméstica, pública ou privada, amorosa ou celibatária.
Os contos de fada, que tantas gerações escutaram antes de dormir, precisam ser incluídos na bagagem da nova mulher, mas não mais daquele jeito. Já não são mais só contados, agora necessáriamente possuem imagens, o cinema faz parte desta transmissão de histórias.
Existe um filme recente que tenta uma saída para Cinderela, chama-se: “Para sempre Cinderela”. No filme descobrimos que ela não era boba e submissa como pensávamos e sim inteligentíssima e letrada. A jovem orfã teve tempo de ser introduzida não só ao gosto pela leitura por seu pai, mas também ao uso das espadas, o resultado é uma moça muito moderna, cujo único problema é que talvez não possamos chamar de Cinderela tão simpática personagem.

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