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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Herbologia mítica e mágica: Fatos e mitos sobre a mandrágora, planta mágica de Hogwarts

As mandrágoras em Harry Potter (Filme Harry Potter/Divulgação)

Saiba por que essa planta que foi estrela até de filme do bruxo Harry Potter fascina e aterroriza os humanos desde a Antiguidade


Em visita recente ao Cloisters, a magnífica filial do Museu Metropolitan à beira do Rio Hudson, no extremo norte de Nova York, me surpreendi ao verificar que, em meio àquele acervo de tesouros da Idade Média, uma planta disputava as atenções do público. No jardim de plantas mágicas e medicinais da Europa medieval, reluzia a estrela em questão: a mandrágora. Mas eu, que sempre me deixei fascinar pela aura de lenda e superstição que envolve esta espécie vegetal venerada desde a Antiguidade, tive certa decepção: vista de perto, a temida e amaldiçoada mandrágora não causa espanto nenhum, oras. 


Exemplar de mandrágora no jardim de plantas medievais do Cloisters, em Nova York (Marcelo Marthe/VEJA.com)


 É lógico que eu não esperava nada tão vívido quanto as mandrágoras retratadas, digamos, em Harry Potter e a Câmara Secreta, segundo filme da franquia protagonizada pelo bruxo criado pela escritora escocesa J.K. Rowling. No filme de 2002 (e no livro correspondente que o inspirou), os alunos do colégio de feitiçaria de Hogwarts têm uma aula sobre a arte de colher uma mandrágora de um jeitinho minimamente seguro – como se revela na sequência, as raízes das plantas são seres com formas humanas que emitem gritos estridentes e paralisantes ao serem arrancados da terra. Seres fofinhos, mas bem desagradáveis, enfim. 
Mandrágora



Ilustração medieval que ensina como colher a mandrágora com a ajuda de um cão (Leemage/Corbis/Getty Images)

Mesmo com toda sua empolgação infantil, a aventura de Harry Potter não chega a superar, em matéria de fantasia, as crendices sobre a mandrágora perpetuadas por séculos. Na verdade, até que o filme é bem fiel às fontes consagradas sobre o tema. Reza a lenda propalada desde tempos longínquos que a mandrágora nasce de uma maneira tétrica. Sua origem está no último suspiro de um homem vítima da chamada “morte suja” – o enforcamento perpetrado em geral com uma corda curta, de modo que as vértebras cervicais não se rompam com o peso do corpo e o sujeito agonize por mais tempo, até morrer por sufocamento. Quando isso ocorre, o corpo libera secreções como o sêmen no momento da morte. Bingo: segundo a superstição, toda vez que uma gota do sêmen de um homem enforcado atingisse o chão, ali nasceria uma mandrágora. As histórias sobre como colher e turbinar os efeitos mágicos da mandrágora não são menos coloridas. Acreditava-se, realmente, que todo cuidado era pouco ao se arrancar a raiz da terra, pois seu grito lancinante levaria a pessoa à morte. Entendidos em botânica e magia da Idade Média ensinavam como se driblar esse risco. Não era lá muito simples. Segundo o tratado conhecido como Tacuinum Sanitatis, o modo mais seguro de colher a mandrágora seria amarrar a ponta de uma corda nela e a outra ponta no pescoço de um cachorro com bastante fome. Depois, à distância, a pessoa deveria tampar seus ouvidos com cera e oferecer um belo naco de carne ao bicho – que, ao correr para pegar a comida, arrancaria a raiz da terra. Melhor fazer essa operação em noite de lua cheia, opinavam os sábios do período. E era bom o dono se desapegar de seu mascote: o cão inevitavelmente morreria com o grito da raiz endiabrada. 

Mandrágora

Ilustração de Mandrágora com forma humana (Istock/Getty Images)

 Para extrair toda a potência mágica da mandrágora, outro manual recomendava que se colhesse sua raiz numa noite de segunda-feira, durante a lua cheia. Em seguida, a raiz deveria ser mantida num local escuro e banhada por trinta dias com leite de vaca que tivesse sido usado para afogar três morcegos. Na 31ª noite, a raiz deveria ser secada em um forno aquecido com ramos de outra erva conhecida por suas propriedades curativas, a verbena. Depois, era só embrulhar a mandrágora num trapo de roupa de um homem morto e usá-la como talismã poderosíssimo. A mandrágora era tida como veneno, afrodisíaco, ingrediente infalível para a amarração de casais, bem como para fazer e afastar mandingas, expulsar demônios e estabelecer contato com entidades místicas. Em alguma medida, a planta real dá razões para as pirações. Originária da região do Mediterrâneo e pertencente à família das solanáceas, a mesma do tomate e da berinjela, ela é rica em alcaloides potentes que provocam alucinações, delírios, aumento do apetite sexual e perda de consciência. Se ingerida em certas dosagens, pode causar até a morte por asfixia. Acrescente-se a essas propriedades químicas o fato de sua raiz bifurcada lembrar o formato de um corpo humano com pernas, braços, rosto e órgão sexual – e pronto: está dado o fermento para tantas crendices. 

Mandrágora

Mandrágora de verdade: você encararia esse almeirão esquisito? (Istock/Getty Images)
  Mas voltemos ao começo do post. Ao vislumbrar a mandrágora de perto, ela parecia apenas mais uma dentre as diversas ervas simpáticas e prosaicas cultivadas no jardim do Cloisters. Revelava-se, inclusive, menos chamativa que a maioria: uma coisinha meio atarracada, que lembrava um pé de almeirão, com discretos frutos semelhantes ao nosso jiló. Ainda assim, um horda de turistas (eu incluso) parava para fotografá-la. Nem me animei, contudo, diante da possibilidade de arrancar sua raiz da terra. Havia seguranças do museu de olho. Pior: não havia nenhum cachorro ou pedaço de corda por perto. Você se habilitaria?

Por Marcelo Marthe/O jardineiro casual

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Herbologia sagrada! Saravá, espada-de-São-Jorge: a planta que é pau para toda obra

Sansevieria trifasciata (iStock/Getty Images)

Saiba como extrair o máximo do efeito escultural e da rusticidade desse coringa botânico que nunca sai de moda - e ajuda até a diminuir a poluição em casa


ASSIM COMO acontece com roupas de grife e menus de restaurantes finos, há plantas que entram e saem da moda ao sabor das estações – ou, notadamente, do faro comercial das empresas de paisagismo. O uso exaustivo do capim-do-Texas ou do filodendro Xanadu nos jardins e canteiros de avenidas de São Paulo é sintoma desse mal crônico. Outras plantas nunca saem de moda, e seu potencial de valorizar qualquer ambiente permanece inabalável por décadas, quiçá séculos a fio. É o caso da espada-de-São-Jorge. Essa planta originária da África do Sul tornou-se, você sabe, um ícone do nosso sincretismo sem fim. Na umbanda e no candomblé, ela simboliza a espada (ou lança) do orixá conhecido como Ogum. No nosso catolicismo mesclado de influências afro, Ogum se confunde com São Jorge, o santo da Capadócia que, segundo reza a versão hagiográfica, sacava de sua espada para matar um dragão. Herança dessa dupla referência religiosa é a fama mística da planta: cultivada num vaso perto da porta ou dentro de casa, a espada-de-São-Jorge teria o poder de espantar quebranto e mau-olhado. Mesmo que você despreze essas crendices, contudo, um fato é irrefutável: poucas plantas ostentam sua dupla qualidade – ser rústica ao extremo e proporcionar um efeito dramático estupendo, graças às folhas alongadas de disposição perfeitamente vertical. Vamos primeiro à rusticidade. A espada vem de ambientes secos, o que significa que não está nem aí para uma terrinha ruim, e não reclama se você simplesmente se esquecer de regá-la com frequência. Na verdade, talvez a única coisa que ela deteste seja o excesso de água – o que significa que você deve tomar cuidado para não deixar o vaso ou canteiro encharcado. A espada também resiste a uma enorme variação de luminosidade: ainda que prefira o sol e a meia-sombra, ela vai bem até em lugares sombreados, como o interior de apartamentos. Um detalhe a torna ainda mais desejável: a espada, comprovadamente, funciona como um filtro anti-poluição. Eu, por exemplo, tenho há anos um grande exemplar dela dentro de meu quarto de dormir. A espada, na verdade, não é uma arma solitária, mas todo um arsenal. Há diversas espécies e cultivares de Sansevierias – seu gênero científico. Isso aumenta muito as possibilidades de uso dessas maravilhas botânicas, mas também coloca o desafio de saber escolher com precisão o tipo de Sansevieria mais adequado para o efeito que você busca. Confira algumas dicas:

Sansevieria trisfaciata: é a variedade mais comum de espada-de-São-Jorge. Funciona bem em vasos ou para fazer bordaduras de muros e caminhos, de preferência em canteiros limitados para a planta não se expandir para onde não deve (Istock/Getty Images)

Outro exemplo de uso da espada-de-São Jorge comum (Sansevieria trifasciata): dessa vez, em canteiro suspenso. Note o efeito dramático do contraste entre as linhas horizontais do revestimento do canteiro e a folhagem vertical (iStock/Getty Images)

Sansevieria cylindrica, ou lança-de-São Jorge: as folhas pontiagudas produzem um efeito inigualável. A planta, porém, requer mais exposição à luz direta do sol do que a espada comum. Vai melhor, portanto, em áreas abertas e varandas (Istock/Getty Images)

Quando colocada em vasos vistosos de cerâmica, concreto ou metal, a lança-de-São-Jorge confere um ar moderno e arrojado a interiores. Mas atenção: para a planta se desenvolver bem, o vaso deve ficar sempre próximo de uma janela ensolarada (Istock/Getty Images)

Sansevieria trifasciata var. “hahnii”: a chamada espada anã é ótima para pequenos vasos e como forração em canteiros sombreados. Esta é, aliás, a variedade da planta que mais se adapta à sombra total (Istock/Getty Images)

Sansevieria trifasciata var. “Moonshine”: para quem deseja fugir do comum, indico vivamente essa variedade de folhas mais largas e esbranquiçadas, que prefere ambientes de meia-sombra (Reprodução/Wikimedia Commons)
 Fonte: Veja - Por Marcelo Marthe
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