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sábado, 10 de setembro de 2022

OS SENHORES DO DESTINO: O diferencial entre a Umbanda Astrológica e os cultos afrobrasileiros já conhecidos

 




Uma pergunta que recebo muito de buscadores, umbandistas, espiritualistas, astrólogos e magos é sobre o que realmente traz de novo a Umbanda Astrológica e qual a diferença da Umbanda já conhecida. Bem, em primeiro lugar a filosofia de Umbanda Astrológica é a de não descartar os conhecimentos ancestrais, ou seja, assim como o Cristo disse sobre as Escrituras "eu não vim pra mudar a lei..." na concepção de Umbanda Astrológica, também decidi que não vim pra mudar a Umbanda Popular ou Tradicional, mas, trazer novos elementos que possa somar e facilitar aos buscadores que não querem se associar a grupos. Mas, confesso que discordo de muita coisa que vemos Brasil a fora inseridas na Umbanda o que na verdade não tem nada dos verdadeiros ensinamentos dos orixás. Uma dessas coisas se refere ao sufocamento do kardecismo sobre a Umbanda. Muita gente quando fala em espiritualismo mesmo se sentindo atraído pela Umbanda, acaba sempre confundindo os cultos afrobrasileiros com o Kardecismo. Mais uma vez afirmo que não tenho nada contra o ensinamento de Kardec, apenas repito que uma não tem nada haver com a outra.

Mas, deixando de lado o que eu não aprovo vamos ao que a Umbanda Astrológica traz de novo ou de diferente. Em primeiro lugar diz respeito a visão espiritualista do culto aos orixás. E no meu livro OS SENHORES DO DESTINO E A COROA ASTROLÓGICA DE ORUMILÁ, que já está nas livrarias, fui buscar num passado bem distante o inicio dos cultos aos ancestrais, aos deuses criadores e o uso da magia divinatória. Inclusive constatando que o homem tentando cumprir bem o seu destino, ele tenta usar ferramentas, como magia e os oráculos pra ter mais força e uma orientação mais abalizada de que caminhos seguir e quais atitudes tomar pra não sair da linha de sucesso de seu destino. E nesse contexto que o livro aborda, que é a importância dos oráculos para que o homem se sinta mais seguro pra seguir seu caminho, é que a Coroa Astrológica de Orumilá é citada. Primeiro porque Orumilá é o Orixá do Destino, o Grande Babalaô do Orun, o Grande Adivinho do Astral Superior e o senhor dos oráculos. E por isso a Coroa dele é citada, como sendo esta formada pelos signos e portais zodiacáis! Enfim, nessa filosofia astro-ancestral, vemos o orixá como um guia direcionador e não escravizador. Ou seja, o homem tem Destino, mas, também o livre-arbítrio. Assim não vemos ele como obrigado a seguir essa ou aquela religião pra poder se conectar aos seus ancestrais. Então esse é o maior diferencial entre a Umbanda Astrológica e a Umbanda Tradicional, ou seja, deixar o homem livre pra buscar de forma individual ou se quiser se associando a grupos, mas, sempre sem ter que se prender a obrigações que muitas vezes são apresentadas de forma insensata ou até esdrúxula as pessoas que buscam informações.

Quem comprar o livro OS SENHORES DO DESTINO E A COROA ASTROLÓGICA DE ORUMILÁ, perceberá que a mensagem é para alertar ao homem a importância dos ancestrais, mas, que ele é a principal porta para que seu destino se concretize da melhor forma. Ou seja, que seus orixás podem lhe mostrar os caminhos, mas, as escolhas pessoais é que ditarão os resultados dessas leis e missões passadas pelos Senhores do Destino.

Uma diferença importante também é que na Umbanda Astrológica vemos os orixás como seres de luz, que em termos elevados nunca encarnaram, distanciando-se assim dos conceitos, especialmente da Umbanda Kardecista, que costuma ver em grande parte os orixás ou guias, quase sempre como Eguns, ou seja, desencarnados atuando. Outra diferença, é que os cultos conhecidos, costumam limitar muito os orixás a atuação aqui na Terra, identificando um orixá a um rio, uma montanha, um elemento e assim por diante. Enquanto na Umbanda Astrológica, como eu já disse, vejo o orixá, como um ser elevado, em seu alto grau de Orixá Maior, um ser que não passou pela vida humana, assim como os Arcanjos ou Querubins. Apenas os Orixás Menores, como bem enxergou Pai Matta, que já encarnaram e passaram a militar nas legiões e linhas dos orixás. O mesmo acontecendo com Exus e Pombagiras.

Também vemos cada casa astrológica, signo ou portal zodiacal, como uma porta ou reino governado por um ser cósmico de luz, como por exemplo, Touro regido por Oxóssi e assim por diante. Além da regência de um orixá, a regência também dos anjos cabalísticos se dá nos portais do Zodíaco. Não citada no livro, por que a edição ficaria muito grande, mas, terá continuidade num livro futuro.


Em nossa filosofia também, não temos como na Umbanda Kardicista, uma visão da existência como se ela fosse fadada a um carma escravizante onde a pessoa tenha vindo pra sofrer ou penar durante toda sua existência. Na verdade, vemos uma interação entre Destino+Livre-arbítrio+Acaso e que dependendo dessa interação tudo pode modificar totalmente a rota ou os acontecimentos. Tanto que acredito que o Ifá é o grande livro da vida, a "Bíblia" dos oríxas. E que esse oráculo divinatório fantástico existe justamente pra ajudar o homem a mudar, aprimorar ou a cumprir com sucesso seu destino e missões, rumo a felicidade e não apenas que cumpra-se destinos cruéis.

Outra coisa que prego com os conceitos de Umbanda Astrológica é que vivemos ciclos, estamos inseridos em graus e hierarquias. E assim temos que ter códigos em mente, signos em ação e não apenas utilizar o conhecimento do orixá somente baseado na tradição oral, na vocação ou no dogmatismo. E sim que o homem tem que buscar cumprir, degraus iniciáticos, seguindo certos preceitos seus e só seus, sem copiar o que os outros vivem. Ou seja, cada um tem um destino, uma herarquia e uma força única. Ninguém é igual. Por isso, não é porque alguém cultura um orixá, é devoto de Ogum, por exemplo, e tem sucesso que outro fazendo o mesmo que terá o mesmo benefício. Ogum pode ser muito positivo e necessário pra uns e não pra outros. Obaluaê visto como ruim pra uns, pode ser maravilhoso pra outros - tudo depende da ancestralidade de cada um. Não serve a receita dada a um pra todo mundo da mesma forma. Além disso, esqueça essa história de que todo mundo tem um único orixá, pois temos a atuação do Astral e do Orun completo sobre todos, cada um com um código e de uma forma único. Mas, os orixás atuam em cada um de uma forma, mas, eles sempre estarão lá, como os signos do Zodíaco.

Carlinhos Lima 
 
 
 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Cultos afrobrasileiros: Durante conferência, povos de matriz africana reivindicam políticas de proteção a terreiros

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 UMBANDA, CANDOMBLÉ E OUTROS SEGUIMENTOS


Durante a 4ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Conapir), realizada em Brasília, de 27 a 30 de maio, lideranças religiosas de vários estados do Brasil debateram sobre casos de violações de direitos e reivindicaram políticas públicas de proteção a terreiros, além do combate ao preconceito e intolerância. “A gente está vendo terreiros e os símbolos do candomblé, das religiões de matriz africana, sendo destruídos por fundamentalistas das mais variadas tendências religiosas. E a gente precisa que esses fundamentalistas comecem a respeitar mais a fé alheia, porque você tem direito a sua fé, tem direito até de não professar nenhuma fé”, avaliou Erivaldo Oliveira, presidente da Fundação Cultural Palmares. Segundo Oliveira, a fundação recebeu, desde 2015, cerca de 100 denúncias de violações contra terreiros em todo o país, mas diz acreditar que o número de casos que não chegam ao conhecimento da fundação pode ser ainda maior. “Isso tudo é fruto de um racismo, de um preconceito exacerbado no Brasil e também da falta de conhecimento, porque as pessoas do Brasil não se acostumaram com a cultura afro-brasileira e não entendem o que é um terreiro, a umbanda e o candomblé”, declarou. Uma das propostas levantadas durante a conferência foi o fortalecimento da Lei 10.639, que obriga as escolas a incluírem no conteúdo programático o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira. “Quando você implementa a [Lei] 10.639, você está fazendo um trabalho com uma criança para que ela se torne um adulto que vai respeitar, ela não vai ser um adulto intolerante”, defendeu a mãe de santo Tuca D´Osoguiã, integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Mãe Tuca afirmou ainda que uma das prioridades eleitas durante a conferência é a luta pelo arquivamento da ação que tramita no Supremo Tribunal Federal, contra o sacrifício de animais para fins religiosos. Os praticantes da fé de matriz africana querem manter as práticas de abate de animais destinados à alimentação nos cultos dos terreiros. “Se esta ação passar no STF, pode virar uma jurisprudência e isso acaba com nossa cultura e com a segurança alimentar do nosso povo”, disse Mãe Tuca.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Cultos afrobrasileiros: INTOLERÂNCIA RELIGIOSA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO: LIMITES DE UM E OUTRO

 “Certamente, há mais de dois mil anos as religiões de matriz africana já precediam o próprio Cristianismo”, afirma o antropólogo Raul Lody, autor de mais de 20 livros sobre o tema. O desenho do artista Carybé mostra a festa do pilão de Oxalá.

“Certamente, há mais de dois mil anos as religiões de matriz africana já precediam o próprio Cristianismo”, afirma o antropólogo Raul Lody, autor de livros sobre o tema. O desenho é do argentino-baiano Carybé e nos mostra a Festa do Pilão de Oxalá.
O juiz Eugênio Rosa de Araújo, da 17º Vara Federal do Rio, voltou atrás apenas em sua enviesada definição sobre religiões, mas manteve a decisão: quem prega a intolerância contra as minorias religiosas afro-brasileiras, pode pregá-la livremente, em nome da liberdade de expressão. Pode? Como representante do Estado, que garante a ordem e a igualdade de todos perante a lei, o juiz deveria proteger os que mais precisam (e não há nenhum “coitadismo” aqui). Quando ele se atém, estritamente, ao viés jurídico, torna-se precário o julgamento de situações subjetivas, como no caso. A legalidade da liberdade de expressão  – nosso bem tão precioso! — também tem um limite: é quando deixa de ser expressão para se transformar em propaganda, visando destruir ou capturar o outro. Senão, vejamos: a  propaganda nazista não respeitava direito algum, já que, à época e dentro do território germânico, o nazismo era considerado uma… legalidade. Era?
Quem lembra esta realidade é o filósofo inglês George Steiner em seu livro Nenhuma Paixão Desperdiçada: “O Estado-nação ergue-se sobre mitos de instauração e de glória militante. Perpetua-se por meio de mentiras e meias-mentiras.(…) A única cidadania que o intelectual reconhece é a do humanismo crítico. Ele sabe que o nacionalismo é uma espécie de loucura, uma infecção virulenta que leva a espécie humana ao massacre mútuo”.

O nacionalismo é aqui tomado como a exclusão do outro, seja por razões de busca de uma ”raça pura”, seja por razões de imposição de uma religiosidade única. A decisão do juiz mantém  o direito de alguém “falar mal” do outro. Como posso dizer que o ideal do outro – representado pela religião – não presta só porque tenho uma visão diferente da vida ou da divindade que venero? Em política, podemos falar de um embate entre visões diferentes, porque é legítimo que um partido brigue para alcançar o poder; no entanto, é ilegítimo que alguém brigue para impor sua visão religiosa.  É o que nos assevera o professor de História das Religiões, Giuseppe Bertazzo:
“A história, a antropologia e a genética ensinam que não existe “raça pura”. Querer encontrar uma religião “pura” é também algo não aconselhável. A não ser que você queira considerar a religião etnocêntrica, a de um povo que se coloca em contraposição aos “inimigos”. Até a religião hebraica, em seu início, considerava Jahvé (ou Jeová) seu deus exclusivo, em contraposição aos outros. Felizmente, aos poucos abriu-se para um monoteísmo que caminhou, pelo que conhecemos pelas palavras do profeta Isaias, uns 500 anos antes de Cristo, para a concepção de um deus preocupado com os mais fracos. Ao enunciar o projeto de sua missão, Jesus Cristo serviu-se da palavra de Isaias. Sem esquecer que a mesma Bíblia contém elementos, visões e narrações anteriores que encontramos no Egito e na Mesopotâmia antigos; o cristianismo e o islamismo beberam nessa fonte de deversidades culturais. Em determinados momentos históricos também as religiões as religiões se mesclaram diretamente ao Poder,  servindo como justificativa para ditaduras e proteção dos poderosos. Eu admiro demais Jesus Cristo que falava que a Justiça não podia ser apenas a dos fariseus, que só impunham obrigações, mas deveria ir além: olhar diretamente para as necessidades das pessoas. O mesmo Estado,hoje, deve se voltar para quem mais precisa;  no caso, as religiões afro-brasileiras, que não querem dominar a sociedade.”
Assim, devermos ir além da literalidade da lei para olharmos as singularidades da herança histórica brasileira: uma radiosa mistura. Raul Lody, que dedicou sua vida ao estudo das religiões africanas, pode nos iluminar:
“Na formação de povo brasileiro, os Yorubá, os Fon, os Ewe;  as civilizações dos povos Bantu e da África oriental abastecem de histórias religiosas o nosso entendimento de fé, de sagrado, de memórias míticas; e de inúmeros conhecimentos culturais agregados à música, à dança, à comida, e ao idioma, entre outros. Organizadas, hierarquizadas, sistematizadas em rígidos preceitos litúrgicos; detentoras de calendários religiosos; também mantenedoras de amplo e  rico acervo cultural de povos africanos no Brasil, são o Candomblé nas suas Nações Ketu, Nagô, Jeje, Angola, Angola-congo, Gexá, Moxicongo em todo o Brasil; O Xangô, no Nordeste; o Mina-jeje e o Mina-nagô no Maranhão e na Amazônia; o Batuque, e as suas muitas Nações no Rio Grande do Sul; e a Umbanda. Essas religiões têm o reconhecimento do Estado nacional por meio do “tombamento” como Patrimônio Nacional (IPHAN), que assim demonstrou a importância dessas religiões tão organizadas quanto as demais que convivem no nosso Estado democrático.”
Há um ponto em comum que une Steiner, pensador da origem das linguagens, a Lody e Bertazzo: o da aceitação das diferenças, o da não-exclusão, o do convívio dos contrários. A ideia é a de que você faz parte de um mundo maior de culturas distintas, que se entrecruzam e se ampliam, abrindo horizontes, sempre enriquecedoras. Ou, como na visão do poeta Drummond: “Amor é o que se aprende no limite”. Aprender a amar a si mesmo, de pronto, é conhecer seus próprios limites.

Fonte/http://veja.abril.com.br/blog/leonel-kaz/
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