Epidemia
e pandemia são palavras de origem grega. E é precisamente sobre a
chamada Peste Grega que assolou Atenas vinda da Etiópia em 430 a.C. que
escreveu recentemente Chris Mackie, da Universidade La Trobe, na
Austrália.
Em um artigo
publicado
em 19 de março no portal The Conversation, o estudioso do mundo
clássico refere que os gregos antigos se interessavam muito pelas
doenças,
não só de um ponto de vista meramente médico mas também como metáfora da conduta humana.
O que os gregos chamavam de "peste"
aparece em algumas passagens memoráveis da literatura grega, como a
"Ilíada" de Homero, onde nos surge Apolo, o deus da peste - um
destruidor e curandeiro - que castiga os gregos enviando pestilências.
Cerca de 270 anos após a "Ilíada", a peste é o tema central de duas
grandes obras clássicas atenienses - "Édipo Rei", de Sófocles, e o livro
II da obra de Tucídides "História da Guerra do Peloponeso",
praticamente contemporâneas.
As páginas que Tucídides escreveu sobre a "peste" que atingiu Atenas
em 430 a.C. pertencem aos grandes anais da literatura grega clássica.
"É notável a forma como ele descreve a resposta social à epidemia", salientou o estudioso.
Epidemia
A descrição da "peste" em Atenas segue-se imediatamente ao famoso
relato de Tucídides "A Oração Fúnebre de Péricles" (este morreu da
doença em 429 a.C., enquanto Tucídides foi contagiado, mas sobreviveu).
Tucídides descreve os
estágios iniciais da epidemia,
sua propagação nas regiões próximas de Atenas, a infecção de toda uma
cidade e as lutas dos médicos para lidar com ela, bem como a alta taxa
de mortalidade, inclusive entre os próprios médicos.
Nada parecia amenizar a crise - nem conhecimentos médicos ou outras
sabedorias, nem orações ou oráculos. De fato, "no final, as pessoas
estavam tão manietadas por seus sofrimentos que não prestavam mais
atenção a tais coisas", escreveu Tucídides.
Sintomas mortais
Ele descreve os sintomas com algum detalhe - a sensação de ardor,
dores de estômago e vômitos, o desejo de estar totalmente nu, insônia e
inquietude.
Na etapa seguinte da doença, após sete
ou oito dias, aqueles que tivessem sobrevivido ao primeiro embate da
infecção, viam "a pestilência descer para as entranhas e outras partes
do corpo - genitais, dedos das mãos e dos pés". Muitos cegariam, também.
O
sofrimento ia para além da capacidade da natureza humana de o suportar e tanto faleciam os de constituição forte como os mais frágeis.
Tucídides assinalou que o mais terrível era o desespero em que as
pessoas caíam quando se davam conta de que tinham apanhado a doença, que
na sua ótica reduzia os seus poderes de resistência.
Destruição dos valores
Tucídides também relatou como a epidemia provocou uma quebra dos
valores tradicionais, onde já não existia medo dos deuses ou do homem,
pois quanto às ofensas contra a lei humana, ninguém esperava viver o
suficiente para ser julgado e punido: em vez disso, todos sentiam que
uma sentença muito mais pesada já tinha sido proferida: a doença.
O primeiro surto durou dois anos, seguindo-se mais tarde uma segunda vaga, embora com menos virulência, escreve Mackie.
Um terço dos atenienses terá
morrido da doença, que continua por determinar, embora as hipóteses mais aceites sejam tifo ou varíola, segundo o estudioso australiano.
"Tucídides nos oferece uma narrativa de uma pestilência que é diferente, em todas os sintomas, daquela que enfrentamos."
Mas as lições que aprenderemos com a crise do coronavírus virão das nossas próprias experiências com ele, conclui Cris Mackie.